Por Dentro do Ateliê da Ana Elisa Egreja

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Por Dentro do Ateliê da Ana Elisa Egreja

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Rosa Zaborowsky, nossa nova colab e mente por trás do antenado blog Lolla, volta com mais um conteúdo especial do projeto #MulheresnaSPArte com uma entrevistada de peso, a artista Ana Elisa Egreja. A partir deste ponto, deixamos as palavras com a Rosa… Enjoy!

A Li (apelido da Ana Elisa Egreja) é uma amiga querida dos tempos de infância. Estudamos juntas e lendo a entrevista, não consegui parar de pensar nos momentos em que eu estava com ela em alguns desses ambientes que hoje são a base das suas telas e de como os objetos, a luz e as texturas e todos os elementos estavam a impactando. O trabalho da Ana Elisa é obsessivo, muito sólido. É maravilhoso e hipnotizante. A entrevista foi logo depois da inauguração da exposição “Jacarezinho, 92”, a mais impactante, pelo menos pra mim.

ana elisa egreja pintando em seu ateliê

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Rosa Z.: Como foi o seu início de carreira? Sempre soube que seria artista plástica?

Ana Elisa Egreja: Eu comecei cedo a trabalhar com arte. Fui assistente da Marina Saleme aos 16 anos e fiquei os três anos de colegial com ela; na hora de escolher a faculdade não tive dúvidas que o que eu queria era ser artista e ter essa rotina de ateliê, só não sabia se seria possível.  Fui fazer faculdade de artes plásticas e me formei em 2005, e felizmente estou nesse contato diário com a pintura desde então.

RZ: Seus quadros impressionam por tantos ângulos! A técnica, a luz, a proposta. Conta um pouco do processo criativo.

AE: Sempre tive como maior referência os pintores holandeses do séc. XVII, tanto pela escolha do tema doméstico – a pintura de gênero – quanto pela técnica precisa de reflexão de luz e texturas dos objetos pintados. E dessa vez, na exposição que acontece agora na galeria Leme, “Jacarezinho,92″,  a aproximação também se deu pela montagem real da cena a ser pintada. Nela, imaginei e esbocei todas os ambientes que queria pintar no meu caderninho para depois montar os cenários reais dentro da casa onde moraram meus avós e que é meu ateliê há 9 anos. Neste trabalho, tentei dar conta de produzir de forma real alguns temas constantes em meu universo criativo, como alagamentos e reflexões, padrões e texturas; representar memórias das décadas que esta casa já viveu, dos anos 60 até hoje; além de tentar dar forma a enorme influência que a vivência nesta casa abandonada teve em meu trabalho, a ponto da casa virar meu personagem.

mosaico de obras da ana elisa egreja

Fonte: Galeria Leme

RZ: Dá para dizer então que você tem alguns cenários preferidos?

AE: Sim, posso dizer que meus temas de interesse sempre foram os mesmos, os interiores, as naturezas mortas: desde meus primeiros trabalhos, de 2007, 2008, já estavam lá pássaros mortos pendurados com padrões de tecidos atrás. Mais adiante, quando a colagem virou menos bidimensional e a perspectiva virou uma questão, os ambientes eram interiores de casas repletas de elementos encontrados em diversos lugares, unidos pela pintura. Minha investigação, no entanto, foi ficando mais complexa. fui me aperfeiçoando tecnicamente, e o modo de produção foi mudando. A grande virada foram as naturezas mortas que expus ano passado no Instituto Tomie Ohtake, pois para pintar objetos atrás dos vidros fantasia precisei ter os elementos que queria pintar de fato no ateliê e, devido a isso, uma parte do meu ateliê foi aos poucos se transformando num pequeno set de fotografia. O que era colagem digital virou real e se tornou artificial começar uma pintura a partir de um ambiente pré-existente como eu fazia, então o trabalho tomou a escala da casa e para esta exposição construí de verdade os ambientes, fazendo instalações temporárias nos cômodos da casa. Existiu um grande trabalho de cenografia e produção de objeto para que tudo que eu quisesse estivesse ali no momento das fotos – da explosão de frutas da tela “copa” ao Pancetti de verdade no hall de entrada, passando pelo “aluguel” de galinhas e ratos, iluminação e a construção de um espelho d’água na sala de jantar – e outro enorme desafio foi pintar tudo isso.

RZ: E quando as coisas fogem do controle ou saem diferentes do que você tinha imaginado? Isso costuma ser uma supresa boa ou é frustrante?

AE: Eu fico muito brava, rs. Tenho um trabalho metódico e obsessivo. Ao menos no mundo da pintura as coisas têm que funcionar como imaginei e serem bem acabadas. Se não ficar como eu quero, abandono a pintura como fiz com uma bem grande que não entrou na exposição.

ana elisa egreja ateliê pincel

RZ: Conta um pouco como é a sua rotina.

AE: Nesse último mês, eu fiquei todo tempo no ateliê, mas normalmente dedico as tardes ao ateliê e pela manhã faço as outras coisas da vida, como responder e-mail, ir na terapia, ver meu filho e levá-lo na escola. Mas, não pense que eu paro a noite rs, também tenho um mini ateliê no meu apartamento e muitas noites pinto telas menores durante a madrugada.

RZ: De onde vem a sua inspiração?

AE: Falei dos holandeses, mas muitas outras pinturas me inspiram. Quando posso, tento viajar para ver alguns mestres ao vivo. Agora fui pra Arco, em Madrid, e mais uma vez fiquei em êxtase no Prado, cada particularidade de cada pintor me interessa e me influencia, não saberia mais dizer apenas um.

Ao pesquisar para este trabalho olhei bastante para alguns fotógrafos como Jeff Wall, Louise Lower e Thomas Ruff, que fotografaram ambientes íntimos, manipulados ou não, de maneiras tão diferentes. Tenho também grande admiração pela obra do Cildo Meirelles, sempre inspirador ver alguma de suas instalações. E tem todo o lado trash do mundo que eu gosto também, as coisas bregas, toscas e clichês me inspiram muito!

RZ: As suas obras retratam ambientes bem familiares, hiper detalhados. Pra você chega a ser uma viagem meio nostálgica ou é o ambiente em si que te cativa?

AE: Eu tenho uma ligação forte com algumas casas que passei na vida, como a casa do meu avô no interior de São Paulo, e essa na Rua Jacarezinho, 92. São casas vividas, não apenas decoradas, e muitas cenas que eu já pintei vem dessas memórias. São casas com azulejos comuns, que entra sol pela janela de vidro martelado, como quase todas as casas dos avós, acho que por isso quem olha pode ter uma certa identificação nostálgica. Mas, apesar de escolher alguns objetos carregados dessa memória afetiva coletiva, não estou buscando uma memória perdida ou fazer alguma espécie de homenagem. Estou buscando pintar um ambiente “ideal”, se e que é possível… e nele as coisas mais díspares se unem, seja pela cor, pela textura ou pelo conforto. Por isso, uma boa leitura pode ser encarar a pintura como um conto de realismo fantástico. Eu não sei porque tal elemento tem que estar lá, só sei que tem que estar para a imagem se completar. E aproveito aqui pra dizer – não tem nada de surrealismo nem de hiper realismo!

ana elisa egreja em close no seu ateliê às vésperas da sp arte

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RZ: Você consegue desligar o canal de inspiração? Porque tudo acaba virando uma referência né?

AE: Nunca, o tempo todo estou fotografando os lugares que passo, um canto que me interessa num banheiro, um detalhe de um tecido… Tenho um banco de imagens gigante e isso volta pro trabalho sempre.

RZ: Acho que nenhuma forma de arte se sustenta só com as ferramentas orgânicas, tipo a tela, a tinta e o pincel. Hoje dependemos de tecnologia pra tudo. Como você usa isso no seu trabalho?

AE: Eu acho que se sustenta sim, mas eu entendi a pergunta. O que tem que ficar claro é que é um equívoco dizer que a pintura é um suporte antigo, enquanto, por exemplo, uma instalação com projeção de vídeo é algo supertecnológico e, portanto, contemporâneo. Não se deve separar arte por suporte. Eu uso a tecnologia do mundo, mas viveria muito bem sem ela, isso não é determinante para boa arte. Claro que também tem que considerar que o pincel e a tinta estão cheios de tecnologia! Sem falar dos midiuns, os solventes, toda essa “cozinha” da pintura, que é muito elaborada e eu adoro utilizar.

RZ: Você acabou de inaugurar uma exposição na Galeria Leme, quais os próximos planos para 2017?

AE: Acabei de saber que fui selecionada pro Vídeo Brasil e estou empolgada com uma exposição lá neste segundo semestre!

RZ: Qual você acha que foi o turning point da sua carreira?

AE: Não sei dizer, tenho uma carreira ainda em construção!

RZ: Que dica você daria para quem está começando?

AE: Eu diria que não existe nenhum trabalho de arte que se constrói rápido, acredito que um artista tem uma trajetória depois de 20 anos de trabalho e olhe lá. Tem que ter disciplina mesmo, se dedicar. Diria para os jovens artistas focarem mais no trabalho do que na imagem pessoal ou na busca de sucesso, tem que desconfiar desse mundo exposto e midiático. Também é legal tentar ser assistente de artistas e é importante mandar obras para os salões de arte!

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